Artigos mais lidos, escritos desde 07 Setembro 2009

De Chávez a Piñera

Enviado por Rogerio em 25/01/2010 às 12:42 PM

Como liberal-democrata de boa estirpe, não estou politicamente representado por nenhum dos partidos atuais. Meu único suspiro limitou-se ao ano da retomada das eleições diretas no Brasil. Em 1989, quando coordenei a elaboração do programa econômico de Guilherme Afif Domingos à Presidência da República.

Divirto-me hoje com o ressentimento dos tucanos para com os petistas em busca dos direitos autorais sobre a autonomia do Banco Central no combate à inflação, o regime de câmbio flexível e a exigência de superávit primário no orçamento fiscal. Afinal, tudo isso e muito mais que ainda falta para nosso bom desempenho econômico e para a redução das desigualdades sociais já estava no programa liberal-democrata que formulamos. De qualquer modo, antes tarde do que nunca.

Liberais-democratas do século XXI combinam o profundo respeito pelas virtudes das economias de mercado (que os republicanos americanos herdaram dos liberais clássicos dos séculos XVIII e XIX) com o sólido compromisso com os indivíduos desafortunados que os mercados deixaram para trás (a solidariedade que os democratas americanos, que se autointitularam "liberais" no século XX, herdaram das religiões e do socialismo).

É por isso que vejo com muito bons olhos a eleição do empresário Sebastián Piñera no Chile. Com sua vitória, a liberal-democracia surge como bem fundamentada alternativa aos socialistas e aos social-democratas. Ao contrário do que ocorre no Brasil, politicamente perneta, um saci-pererê que só tem a perna esquerda.

É compreensível que, pelo sentimento de solidariedade ou de nossa identidade latino-americana, tenhamos simpatia por figuras como Fidel e Chávez. Mas só a desonestidade intelectual, a ignorância econômica ou a cegueira ideológica poderiam encontrar em seu surrado discurso socialista e populista qualquer esperança de futuro melhor para seus povos.

Há hoje dois extremos no espectro político latino-americano, e claramente não se trata mais da obsoleta classificação de "esquerda" e "direita". Trata-se de um conceito evolucionário, de avanço civilizatório, de construção de um capital institucional moderno. "Nem à direita nem à esquerda, mas adiante", como se referiu Alfredo Sirkis, do Partido Verde, em relação à candidata Marina Silva.

A questão é antiga, mas não há muitas dúvidas quanto a quem está no caminho certo para a construção da Grande Sociedade Aberta e quem repete tragicamente erros do passado.

Da ginástica em Esparta para o teatro em Atenas. De uma sociedade tribal militarista para a democracia e o comércio no nascimento de uma sociedade aberta. Do pensamento mágico e da utopia coletivista para o raciocínio científico e a valorização de cada indivíduo. Uma escalada histórica em direção à Grande Sociedade Aberta. Embaixo, estão Fidel e Chávez. Muito acima, estão Bachelet e Piñera.

Etiquetas: | Área do Site
Publicidade de Bligoo.com

Individualismo vs individualidade

Enviado por em 25/01/2010 às 04:32 PM
Celo

Caro, em primeiro lugar parabéns pelo tom construtivo do artigo, bem escrito e com boa articulação, claramente bem intencionado. Evidentemente que, apesar disso, o conteúdo pode ser questionado por quem discorde certo?

Vou me ater ao caso chileno, pois é o país em que moro há pouco menos de dois anos e posso, através desta experiência, aportar ao debate com algumas reflexões e observações pessoais.

A abertura do Chile aos acordos bilaterais e ao neo-liberalismo promovidos - até o momento de forma irreversível - por Pinochet durante a ditadura, colocou o Chile em um estado de graça atual bem ao estilo latinoamericano tradicional: bursátil, fragilizado pela dependência externa e subjugado ao interesse de capitais externos ao país. Tal como foram a economia açucareira, o ciclo do ouro, prata e diamantes, café e borracha.

A indústria chilena é praticamente inexistente. Não sou especialista, mas entendo que você é, portanto deve conhecer fontes para confirmar o que eu te digo. Existe uma classe de empreendedores bem ao estilo Apple: Made in China, but Designed in California... mas a opção feita no governo militar foi por comprar tudo pronto de fora, e exportar minério, frutas, peixes e frutos do mar. Assim como antes fora salitre e agora é cobre o protagonista desta economia financista.

A saúde, a segurança social, o sistema bancário (quase completo), a telefonia, as estradas, os portos, a água, a pesca, a exploração do solo (exceto cerca de 30% do cobre), a aviação (por acaso do próprio Piñera), o transporte urbano e tantas outras áreas que podem ser consideradas estratégicas estão em mãos de empresas privadas, sem o menor interesse no bem-estar social.

Os índices de endividamento por créditos de consumo são abismantes (não estou dizendo crédito para casa própria, e sim para poder fazer supermercado) e não entram nas contas que o Chile envia para o Banco Mundial que os chilenos usam para defender seu "progresso". 

Politicamente, o país ainda está preso a vários fundamentos de uma ditadura como a lei antiterrorista (usada para prender lideranças de movimentos sociais e indígenas, por exemplo) e o sistema binominal, para apontar alguns (Para entender melhor alguns destes aspectos, sugiro que leia meu artigo no Correio da Cidadania sobre o fracasso da esquerda chilena).

Sem mais, gostaria de entrar no ponto fundamental que entendo que discordo de seu argumento, tudo mais vem em virtude disto. Sua visão de "civilização" claramente é uma visão liberal (se não neo-liberal). O socialista progresista e humanista (talvez assim me classifique) vê a questão da civilização e do progresso sob a ótica do ser humano em primeiro lugar, quero dizer, satisfação de necessidades básicas como a educação, saúde e segurança (não apenas como contraponto da violência, mas como estabilidade laboral, bem estar social) como norte da sociedade. E outra destas necessidades básicas é a do desenvolvimento da identidade, da individualidade. Aqui é fundamental tomar cuidado com a perversão do conceito e não confundir com individualismo, que a pedra filosofal das sociedades capitalistas - fundamentadas no livre-mercado, na desregulação financeira da economia, na propriedade privada como direito inquestionável (ainda que seja adquirido de forma duvidosa como no caso de um grileiro).

Proponho a reflexão sobre este ponto de partida. O resto todo me parece que deriva como cascata deste conceito. A garantia da individualidade é diferente da promoção do individualismo, e esta linha não é muito clara, ainda mais em países cuja mídia se preocupa em demonizar o socialismo e exaltar o poder curador do mercado.

 


Direita e esquerda no Brasil

Enviado por em 25/01/2010 às 05:57 PM
Celo

Outra observação: discordo rotundamente de que não haja direita no Brasil, tudo aquilo que é ainda menos radical que o PT deveria ser considerado direita, inclusive (ou talvez principalmente!) o PSDB, que usa, como muitos partidos da Europa, o nome de social-democrata como um eufemismo, para não dizer uma falácia, e são partidos realmente liberais - na acepção econômico-política do termo.


Escreva um comentário

Desea usar sua foto? - Inicie sua sessão ou Cadastre-se grátis »
Comentários a este artigo no RSS

evocecomisso

Você acha que as eleições em Honduras devem ser reconhecidas?

Resultados :
  • Eleiçoes democraticas? pois nao foi asim... O Brasil nao deve reconhecer as eleições : 16 % (1 voto)
  • O Brasil deve reconhecer as eleições. Quem votou foi o povo hondurenho: 83 % (5 votos)
  • Temos tantos assuntos internos para resolver e ainda assim ficamos perdendo tempo com a casa dos outros: 0 %
Total de votos: 6
Esta enquete foi encerrada. Esteve ativa por 5 dias, desde 01/12/2009.
Enquetes anteriores